Chega de analisar os campeonatos. Nesta quinta edição do especial que traz a retrospectiva do São Paulo em 2014, vamos falar sobre o jogo mais marcante da temporada. Uma vitória expressiva, com propriedade, que renovou as esperanças do torcedor e deixou alguns são paulinos confiantes até demais. Pois é, ainda não conseguimos aprender que não podemos cantar 'o campeão voltou' antes da hora - este grito deveria ser proibido, tamanho é o seu poder de zica. Não ficou difícil adivinhar de que jogo estou falando.
| Kardec decretou a vitória sobre o então líder - e posterior campeão - Cruzeiro (foto: terra.com.br) |
Em termos de classificação, o jogo não era determinante. O São Paulo, que já era vice-líder à época (21ª rodada), estava 7 pontos atrás do Cruzeiro, portanto, obviamente, não conseguiria melhorar na tabela em caso de vitória. Mas para manter as esperanças de alcançar os mineiros, o triunfo era essencial - em caso de derrota, a distância de 10 pontos tornaria a vida do São Paulo muito difícil. Por isso, apesar de não ser nem de longe uma 'final antecipada', o jogo era encarado como tal.
Quase 60 mil pessoas compareceram ao Morumbi. É uma pena que seja raro ver o estádio com público superior a 50 mil (quem sabe com a construção da estação São Paulo - Morumbi do metrô isso ocorra com mais frequência...) mas esta raridade contribui até para que a partida ganhe ares de importância. A torcida fez uma linda festa, apoiou o tempo todo e mostrou que realmente acreditava no time. Aliás, o apoio dos torcedores foi um dos destaques do ano, sem dúvida alguma.
O São Paulo começou melhor no jogo e procurou sufocar o Cruzeiro desde o início. Não se pode deixar que o melhor time do país fique muito com a bola, portanto pressioná-los dessa forma foi fundamental. Mesmo assim, os mineiros ainda ofereciam perigo em alguns lances e o São Paulo não conseguia ser efetivo, desperdiçando boas chances que saíam, principalmente, das arrancadas de Pato, o jogador mais incisivo da equipe. O camisa 11 é preguiçoso em algumas - ou muitas - partidas, demonstra uma certa falta de vontade, mas quando entra ligado e com sangue nos olhos ele desequilibra. Ah, se o Pato fosse mais determinado e participativo...
Quando se joga contra o líder do campeonato, é sempre perigoso que o placar mantenha-se sem gols. Afinal, um time não costuma estar na liderança à toa: normalmente sabe aproveitar oportunidades e 'acha' bons resultados. Felizmente, aos 32 minutos, Dedé cometeu pênalti em Ganso - poderia e deveria ter sido expulso com o segundo cartão amarelo, mas o árbitro não teve a coragem de tomar esta atitude - e Rogério converteu. Com a vantagem no placar, os nervos se acalmavam e o São Paulo podia trabalhar a bola com mais calma. Há de se mencionar, ainda, uma defesa espetacular feita pelo nosso capitão em chute de Goulart - que viria a ser o melhor jogador do torneio. Rogério praticamente tirou a bola da 'gaveta', num lance que pode ser facilmente considerado um dos mais bonitos do ano. Por essas e outras, ele decidiu seguir em 2015.
Pausa para um destaque individual. Quando foi a última vez que ouvimos a torcida gritar o nome dos dois laterais em um jogo? Já era difícil isso ocorrer com um lateral, com dois então, raríssimo. Pois nessa partida os nomes de Auro e Alvaro foram entoados pelos mais de 58 mil presentes no Morumbi. O destaque vai para o garoto que, àquela altura, parecia tomar conta da lateral-direita para nunca mais sair. Auro demonstrou uma personalidade enorme e não afinou em nenhum momento do jogo mais importante do ano. Por questões táticas e pelas deficiências naturais do menino na marcação, Hudson acabou ganhando seu lugar no restante do ano. Seria ótimo vê-lo recuperar a posição em 2015, mas a contratação do ex-Fluminense Bruno indica que o garoto deve ser reserva, ao menos no começo da temporada. É uma pena, porque Auro demonstrou talento, personalidade e capacidade de ser titular. É só uma questão de amadurecimento.
Voltemos à partida. Como era de se esperar, o Cruzeiro procurou pressionar mais no início do segundo tempo e chegou a levar perigo em um lance, com Everton Ribeiro. Não demorou, porém, para que o equilíbrio se restabelecesse e o São Paulo voltasse a criar mais chances, controlando a partida. Aos 25 do segundo tempo, Kardec, que já havia perdido uma oportunidade de ampliar, não perdoou e bateu praticamente de dentro da pequena área para marcar o segundo gol do jogo e dar uma tranquilidade enorme aos são paulinos. Daí para a frente, o Cruzeiro foi um time impotente, sem forças para sequer nos assustar. O São Paulo apenas administrou a vitória conquistada com propriedade, com méritos, com justiça.
Fim de jogo, festa da torcida, diferença para o líder reduzida a 4 pontos e otimismo por parte dos são paulinos. Com 17 rodadas ainda por jogar, não era nenhum absurdo pensar que o São Paulo poderia ser campeão. Se jogasse com toda essa garra cada uma das partidas restantes, provavelmente teria, ao menos, conseguido brigar com o time mineiro até o fim, mas sabemos que isso não ficou nem perto de acontecer. A inconstância foi o grande problema do São Paulo em 2014 e o que aconteceu no jogo seguinte ilustra perfeitamente essa deficiência do time: derrota para o Coritiba por 3x1 na capital paranaense. De que adianta, em termos de classificação, vencer o líder e perder para um time fraco logo em seguida? Esse é o principal defeito a ser corrigido no próximo ano. O jogo contra o Cruzeiro serviu, ao menos, para dar esperanças ao torcedor são paulino e deixá-lo orgulhoso da equipe. Que em 2015, no Brasileirão, façamos 38 jogos iguais a este.
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