Brasil, decime que se siente

Romero defende pênalti decisivo e classifica Argentina à final da Copa
(Foto: FIFA)

A Copa deveria ser ajeitada, arrumada e planejada fora de campo, e só fora de campo. No Brasil, em 2014, não tivemos tanta organização, nem tudo rolou como deveria e alguns cometeram um erro imperdoável. Sem fazer firula, sem robinhar, digo que é imperdoável abraçar a lógica em um esporte alucinante e deliciosamente imprevisível igual ao futebol. Espanhas, Itálias, Inglaterras, Costas Ricas, sete a uns... O futebol mata a lógica todos os dias e insistem em trazê-la do túmulo para embasar pensamentos coxinhalizados, alienados ou simplesmente reproduzidos. Em treze de julho, no Rio, teremos uma final que em nada tem lógica... 

É fácil usar lógica para disfarçar um trabalho bom ou maquiar um desastre. Maquiam e maquiarão a chegada de Alemanha e Argentina ao Maracanã com a lógica, pois os defensores da tradição, do peso da camisa, jamais vão parar para analisar um jogo que aparenta ser feio ou chato, um jogo que explora estratégia, marcação, posse de bola, tática, ocupação de espaços... tudo isso é balela, invenção. Interessa mesmo é a quantidade de títulos mundiais conquistados há oitocentos anos atrás, com bola de capotão e zagueiros farmacêuticos. Difícil vencer essa inundadora massa de adoradores da lógica. 

Confesso odiar a lógica, principalmente depois dessa Copa.

A Alemanha trabalhou dez anos profundamente nessa Seleção para chegar na final, segundo Parreira e Felipão, por apenas seis minutos de pane brasileira. Dez anos... dez anos resumidos em seis minutos. 

A Argentina de Sabella, de defesa fraca e dependente de Messi, como a lógica apontava, chega nessa final por causa da tabela que foi uma mãe. Trabalho? Reconhecimento das falhas e tentativa de amenização dos mesmas? Não... é a lógica. Não pegou ninguém, essa Holanda é fraca, tomou sufoco da Costa Rica e atropelou uma Espanha decadente. Essa é a lógica. Confesso, novamente, odiar a lógica. A lógica é uma mentira contada repetidas vezes, e quando contamos uma mentira repetidamente ela acaba tornando-se verdade para alguém. 

Nos pênaltis, Romero garantiu, agora a pouco, uma vaga sulamericana na final da Copa das Copas. Ou seria Copa das Lógicas? A vaga que a lógica daria ao Brasil é argentina, veste branco e celeste, entoa voz de torcedores de futebol, torcedores reais, não público de teatro. A vaga que Parreira cantou ser brasileira, que emissoras compraram como verdade e torcedores engoliram, foi parar em Buenos Aires e no colo de um argentino safado e que nunca jogou nada por sua Seleção. Imagina se tivesse jogado...

E poucos instantes depois de definido esse confronto entre Argentina e Alemanha, as previsões lógicas iniciaram-se. Claro que a Alemanha entra muito favorita diante da Argentina. A lógica diz isso. Se foram sete no Brasil, pentacampeão, de Pelé, Copa de 82, futebol moleque, imagina na Argentina que só ganhou duas Copas, todas elas roubadas, claro, pois as Copas quando não são lógicas são roubadas, vendidas. A fraca defesa da Argentina vai penar diante do poderoso ataque alemão, que só porque fez sete, virou poderoso. É a lógica. Eu odeio a lógica. Se fosse você, odiaria também. 

Sem mais delongas, amigos, teremos final domingo. Como setorista da albiceleste, fico feliz pela chegada e, principalmente, pela forma como os hermanos conseguiram chegar. Por incrível que pareça, os arrogantes argentinos, que diziam todos se sentirem superiores, foram suficientemente humildes para reconhecer suas limitações, suas fraquezas e montar um time capaz de jogar de forma séria e digna, não pela lógica de serem sempre favoritos, mas pela razão de saber até onde a lógica e o trabalho podem ir. Quem dera todos fossem humildes. Talvez até mesmo Dona Lúcia me apoiaria nessa, até mesmo Dona Lúcia... 

Tri ou Tetra, domingo teremos um grito do trabalho competente entoado por um Maracanã predestinado à grandes jogos. A lógica parou no tempo. E quem dera eu essa fosse uma condição atual apenas da lógica...

Argentinos e alemães foram gigantes no Brasil. Uns com mais equilibro, outros com mais genialidade. Os dois com competência. Que vença a lógica... ou melhor, que foda-se a lógica. 

Notas do jogo:


ARGENTINA

Sistema defensivo

Romero; Pouco acionado com bola rolando. Nos pênaltis, fez seu papel e classificou time. Nota: 9,5

Zabaleta; Bom jogo. Nota: 6,5

Demichelis; Bateu em excesso, mas manteve posicionamento e segurou ataque holandês. Nota: 6,5

Garay; Bom jogo também. Seguro. Nota: 7,0

Rojo; Ofensivamente, um desastre. Defensivamente, muito bem. Parou Robben e Kuyt, no primeiro tempo. Nota: 7,0

Meio-campo

Mascherano; Símbolo maior dessa equipe. O capitão sem braçadeira. O melhor do time na Copa. Nota: 10

Biglia; Importantíssimo na reestruturação do time no meio do torneio. Preciso nos desarmes. Nota: 9,0

Lavezzi; Ganhou todas as bolas ofensivas dos defensores laterais da Holanda. Cansou no segundo tempo. Nota: 8,5

Enzo Perez; Gigante hoje. Entrou bem contra a Bélgica e hoje soltou-se mais. Bom jogo. Nota: 9,0

Ataque

Messi; Não foi bem. Por conta própria, recuou, ficou boa parte do jogo entre os volantes. Nota: 6,0

Higuain; Movimentou-se nos primeiros vinte minutos, depois entregou-se à boa marcação do zagueiro holandês Vlaar. Nota: 5,0

Substituições

Maxi Rodriguez; Substituiu Lavezzi, cansado, e recebeu boa bola de Messi, porém concluiu de forma pífia.  Nota: 4,5

Palacio; Foi a substituição "suicida" de Sabella. Supriu saída de Enzo Perez e mudou esquema do time nos minutos finais. Perdeu uma chance que não pode. Nota: 4,5

Aguero; Entrou com dois quilos de cimento em cada perna e bastante pilhado. Nota: 4,5

Técnico

Sabella; Boa parte da chegada à final parte de sua humildade em reconhecer as falhas do time. Pecou e acertou várias vezes durante esse Mundial. Não tem dado sorte nas mudanças durante a partida, porém sem dúvidas conseguiu montar um time competitivo com vários jogadores medianos em mãos. Nota: 7,5




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Sérgio Ricardo Jr. é estudante de jornalismo na UFRN e responsável por cobrir Argentina e Irã na Copa do Mundo 2014.

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Autor: Sérgio Ricardo Jr.

Sérgio Ricardo Jr. é acadêmico em Jornalismo pela UFRN e colaborador do C11 desde 2014.
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