Geralmente não há justiça no futebol, mas ontem houve

Brasil 1x7 Alemanha: maior goleada numa semifinal de Copa do Mundo (Foto: spox.com)
Primeiro de setembro de 2000. Neste dia, a Alemanha sofria uma humilhante goleada para a Inglaterra em pleno Estádio Olímpico de Munique diante de 63 mil pessoas, em jogo válido pelas Eliminatórias do Mundial de 2002. Os alemães se classificaram para a Copa após despachar a Ucrânia na repescagem e chegaram ao vice-campeonato - naquela ocasião, foram derrotados pelo Brasil por 2 a 0 -, mas estavam prestes a sediar uma Copa e acreditavam que tudo deveria ser mudado.


A ideia de renovação tomou conta do futebol alemão. Investiram na base e revelaram jogadores de extrema qualidade. Ficaram na terceira colocação em 2006 e 2010, mas sempre acreditando que a glória era uma questão de tempo e que precisavam de mais alguma coisa. Ontem, dia oito de julho de 2014, a Nationalelf certamente chegou ao jogo mais emblemático de sua história: 7 a 1 sobre o Brasil em pleno Mineirão, impondo à Canarinho, maior campeã mundial, sua mais dolorosa e vexatória derrota. No primeiro tempo, cinco gols num intervalo de 18 minutos. Na segunda etapa, a continuação e a consolidação do massacre - e ainda engataram o freio; caso contrário, teria sido de 10 para cima. Um jogo que ficará eternamente gravado nas páginas da maior competição de futebol do planeta.

E não foi só isso: o atacante Miroslav Klose ultrapassou Ronaldo na artilharia das Copas do Mundo. Com o tento de hoje, chegou a 16 gols e se isolou no topo. Os outros gols foram de Thomas Müller, Khedira, Kroos (2) e Schürrle (2). Oscar descontou para os anfitriões. Müller, aliás, tem 24 anos e já chegou a 10 gols em Mundiais. Pintou um futuro novo artilheiro das Copas? Aliás, Müller deve ser sinônimo de gols lá na Alemanha. Durante muito tempo, o maior goleador da competição foi outro alemão: Gerd Müller, com 14 gols.

Fato emblemático: Klose ultrapassou Ronaldo e se tornou o mais novo artilheiro das Copas do Mundo justamente no jogo que representou a maior derrota da história da centenária Seleção Brasileira (Foto: Getty Images)
Mas então, as maiores considerações a serem feitas sobre o jogo devem levar em conta, primeiramente, o extra-campo. Como já foi abordado neste post, os alemães vêm LAPIDANDO seus craques na base, coisa que parece ainda não acontecer muito aqui no Brasil. Dos jogadores campeões do Mundial Sub-20 de 2011, apenas Oscar esteve entre os 23 convocados para a Copa do Mundo de 2014. Philippe Coutinho, outro destaque daquela competição, foi injustiçado - vem jogando o fino da bola no Liverpool, é o maestro do time - e ficou de fora da lista final. No último Sul-Americano Sub-20, a Canarinho foi eliminada de forma precoce e sequer foi ao Mundial da categoria (sim, mesmo sendo a atual campeã do torneio, não o disputou!!!!!!!!!).

Voltando à Alemanha: quase todos os jogadores tiveram atuações perfeitas ontem. Sim, quase. O meia Özil, que não vem fazendo uma brilhante Copa, esteve apagado. Perdeu um gol feito. Outro fato a ser considerado é a lesão de Hummels, que pode tirá-lo da decisão. Seria um desfalque de peso.

Os jogadores foram categóricos: se desculparam com o povo brasileiro pelo resultado e afirmaram que a Copa é um sonho para eles, por isso era necessário jogar com seriedade durante os 90 minutos. Indubitavelmente, uma grande forma de respeito. Mais uma vez, esbanjaram carisma.

Bola estufando a rede brasileira: cena que se repetiu constantemente (Foto: Robert Cianflone/Getty Images)
E não se enganem: o time ainda tem problemas táticos que precisam ser resolvidos para a grande final, contra Argentina ou Holanda. Não foram expostos nesta terça-feira (8) porque, convenhamos, o Brasil tropeçou na sua elevada auto-confiança nível "VAMOS PRA CIMA DELES, SOMOS PENTACAMPEÕES MUNDIAIS E NÃO DEVEMOS TEMER NINGUÉM". Joachim Löw foi sensato ao declarar que não há nada ganho: "Ainda não acabou. Temos de ser modestos e humildes para nos prepararmos para a final".

Então, não é nenhum absurdo admitir que o resultado foi justo, não só pelo que os comandados de Löw apresentaram dentro de campo, mas por todo o trabalho que vem sendo feito no futebol da Alemanha. E não é só em questão de jogadores. A Bundesliga tornou-se um campeonato atrativo (tá, vamos desconsiderar o fato de o Bayern estar ganhando tudo por lá) e hoje é um dos mais vistos do mundo - acredito que só perca para a insuperável Premier League inglesa. Enquanto isso, o futebol no Brasil não vem sendo levado a sério (pelo menos é o que parece, porque o time toma 7 a 1 em casa e o treinador diz que o futebol daqui não precisa ser reinventado "somente por causa de um jogo"...) e o Brasileirão diminui de nível a cada temporada que se passa.

Foi tanto gol que nem coube... (Foto: Reprodução/FIFA)
Não estou dizendo que os comandados de Luiz Felipe Scolari mereceram ser trucidados nas quatro linhas porque a Bundesliga é supostamente melhor do que a Série A brasileira, estou dizendo que é porque o pensamento e o modelo de fazer futebol em terras tupiniquins está deveras ultrapassado e a atitude de proporcionar mudanças já chegou lá do outro lado do oceano e vem rendendo frutos. E nós, muitas vezes apontados como ~~o país do futebol~~, ainda estamos na mesmice. Técnicos que não procuram se reinventar na carreira ainda têm espaço por aqui, enquanto vemos muitos outros estudando e alavancando suas carreiras com cursos e diplomas mundo afora. Todo mundo respeita o futebol brasileiro e tem noção da grandeza da Amarelinha, menos a CBF.

Sinceramente, não tem como deixar de render aplausos aos germânicos depois de tudo que aconteceu em Minas Gerais. Sempre fui um torcedor declarado da Seleção Brasileira, mas nunca escondi meu respeito pelo selecionado alemão. E a goleada em Belo Horizonte não vai me fazer odiá-los. Muito pelo contrário, me fará respeitá-los ainda mais.

Agora, a Deutschland está a um degrau do seu destino final em terras brasileiras. E seus torcedores esperam que a festa que se iniciou no país desde o jogo da semifinal - segundo a polícia local, 100 mil pessoas acompanharam a partida nas ruas de Berlim, só para servir de exemplo - termine com as comemorações do tetracampeonato no próximo domingo (13). Infelizmente, a Copa do Mundo em nosso país está perto do fim.

O jogo foi às 22h no horário alemão, mas quem dormiu? (Foto: Thomas Peter/Reuters)
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Autor: Luís Francisco Prates

Náutico, Borussia Mönchengladbach e Benfica. Pernambucano, 20 anos, cristão e estudante de Jornalismo.
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