Reconhecer falhas foi segredo para atuação segura da Argentina

Pipita surpreende Courtois e marca (Foto: FIFA)

Em Brasília, Argentina e Bélgica disputaram uma vaga nas semifinais da Copa do Mundo. E os argentinos não encontraram dificuldades em derrotar a Bélgica, que nem de longe lembrou a incisiva e massacrante seleção que atropelou os EUA em volume de jogo. Higuain marcou o único gol da vitória hermana por 1 a 0.

Existem placares que não são condizentes com os jogos. E estamos diante de uma dessas partidas. A Argentina não criou para golear, pelo contrário, sofreu um pouco para criar chances reais de gol, mas em nenhum momento dos noventa minutos teve a partida fora de seu controle. A realidade é que a Bélgica não conseguiu incomodar, só no abafa faltando quatro ou cinco minutos. 

O jogo começou truncado, com a Argentina mudando a postura dos últimos jogos. Foi recompensada por isso quando Messi, bastante recuado na primeira etapa, inicia jogada no meio, deixa com Di Maria, na direita, que erra o passe em direção à Higuain, mas a bola bate em um defensor belga e sobra para Pipita, que age rápido, gira e bate pro gol, surpreendendo Courtois. Só assim para alguém furar Courtois, no susto, no recurso. 

As mudanças de Sabella, que iniciou a partida sem F. Fernandez e Gago e com Demichelis e Biglia em seus lugares, surtiram efeito. A postura do time albiceleste hoje foi muito mais condizente com uma seleção tipicamente sul-americana. Biglia foi uma mão na roda para Mascherano, que marcou sozinho durante os quatro primeiros jogos. Taticamente, Biglia foi perfeito e jogou demais sem a bola. Outra mudança clara foi a alternância maior entre Di Maria e Lavezzi, que foram menos fixos do que em outras oportunidades e também foram mais atacantes. 

Por falar em Di Maria, o jogador deixou o gramado aos 33 minutos da primeira etapa, a principio com algum tipo de lesão muscular, o que pode ser problema para os próximos jogos. Ao contrário do que alguns apontaram, não percebi "abatimento" pela saída de Di Maria. Enzo Perez entrou e continuou a fazer algo semelhante ao seu companheiro, porém sem a mesma intensidade e qualidade, obviamente. É preciso lembrar que a Bélgica já tinha mais espaço e ficava mais tempo com a bola quando Di Maria machucou-se. 

No segundo tempo, percebendo que estava com a partida na mão, os argentinos cadenciaram mais. Ter a bola em seus pés era fundamental para o time, muito mais do que aumentar a vantagem. A Bélgica manteve o nível fraco, com seus principais jogadores batendo cabeça taticamente. Vimos os diabos vermelhos desorganizados e apáticos, algo compreensível pela idade da grande maioria. Os únicos seguros e cientes do que estavam fazendo e precisavam fazer, por parte dos europeus, eram os zagueiros experientes Van Buyten e Kompany, ambos fizeram partida magnífica.

Como nem tudo são flores, preciso destacar que, apesar de ter acertado nos onze, Sabella errou nas mudanças que fez. Fora Enzo, uma obrigação, Sabella recuou o time cedo demais e abriu mão de jogar quando a situação estava sob controle. A Argentina não precisava ter se fechado nos dez ou quinze minutos finais como aconteceu, sacrificando todo mundo em prol de uma imaginável pressão que nunca existiu.

Em evolução, assim vi a Argentina hoje. É preciso saber consertar as coisas antes de tudo ser perdido. Os problemas não foram solucionados, e não creio que serão, até porque entendo ser algo maior do que simplesmente a troca de um jogador por outro, mas foi louvável a tentativa de minimizar os erros e a humildade de reconhecer que as coisas não estavam bem. 


ARGENTINA

Notas:

Sistema defensivo

Romero; Pouco acionado pelo hoje inofensivo ataque da Bélgica. Nota: 6,0

Zabaleta; Manteve a média das atuações. Nota: 6,0

Demichelis; Experiente, talvez tenha ajudado pelo espirito. Tecnicamente não acrescenta. Nota: 6,0

Garay; Recuperou-se da atuação um tanto quanto fraca contra a Suíça. Nota: 7,0

Basanta; Bom jogo. Substituiu Rojo e deu mais segurança ao setor esquerdo. Eu colocaria no miolo de zaga ao lado de Garay, mas isso é bem improvável. Nota: 7,5

Meio-campo

Mascherano; Passou do ponto nas entradas nos primeiros minutos. Controlou-se no decorrer do jogo e foi fundamental, junto com Biglia, na manutenção do placar. Nota: 8,0

Biglia; Em um jogo, fez mais do que Gago em toda a Copa. Simples, tático, voluntarioso. Volante as vezes tem que "volantar" e foi isso que fez. Nota: 9,0

Messi; Jogou mais atrás e bem no primeiro tempo. Não foi tão marcado, teve liberdade e preferiu armar e servir do que decidir. Atuação razoável com lampejos de outros momentos dessa Copa, por exemplo, ao iniciar a jogada do gol. Nota: 7,5

Ataque

Lavezzi; Jogo regular. Nota: 6,0

Di Maria; Estava bem, fazia excelente jogo quando saiu machucado. Sem nota.

Higuain; Existe uma diferença entre ser mais participativo e menos apático e ter jogado bem. Gol importante. Nota: 6,5

Substituições

Enzo Perez; Entrou na fogueira e frio. Tentou, ao menos, ser defensivamente tão importante quando Di Maria, e conseguiu. No ataque, diferente do companheiro, não arriscou-se.  Nota: 6,5

Palacio; Entrou para tentar segurar a bola no ataque, não conseguiu. Nota: 6,0

Gago; Entrou no fim. Sem nota.

Técnico

Sabella; Reconhecer erros não é demérito. Hoje, reviu suas convicções e foi, talvez, o grande responsável pelo domínio do time em relação ao jogo, já que esse domínio passa pelo meio-campo, onde ganhar território é fundamental. Bem ao entrar com Biglia, mal ao fechar cedo demais e sem necessidade. Nota: 7,0


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Sérgio Ricardo Jr. é estudante de jornalismo na UFRN e responsável por cobrir Argentina e Irã na Copa do Mundo 2014.
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Autor: Sérgio Ricardo Jr.

Sérgio Ricardo Jr. é acadêmico em Jornalismo pela UFRN e colaborador do C11 desde 2014.
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