Taticando na Copa #03 - A reativa Argentina passa, mas sofrerá com o ímpeto das zebras


            Quando as bolinhas anunciaram o Grupo F, formado por Argentina, Bosnia, Iran e Nigeria, todos davam total favoritismo à primeira seleção. Não deixa de ser verdade, mas não achem que o caminho vá ser tão fácil assim para os hermanos. Venho aqui ajudar a destrinchar taticamente esses grupos e mostrar como cada uma das quatro equipes jogam. Comecemos pela cabeça-de-chave:

ARGENTINA


                Um time bem diferente do tradicional argentino, a seleção de Alejandro Sabella foge do estilo “toco y me voy” de posse paciente e com a figura do “enganche” (camisa 10). Apostando na mescla de experiência com juventude, o comandante campeão da Libertadores com o Estudiantes adota um estilo de marcação mais baixa no campo (preferindo formar um bloco mais sólido na parte de trás do campo) e saídas rápidas em contra-ataques, centrando muito as ações no craque Messi.

                Sua formação preferida é o 4-3-3 de triangulo de base alta bem compacto, com variação para o 4-4-2 losango dependendo do posicionamento de Messi, que pode centralizar, sempre em torno da proposta de reagir e buscar buracos nos avanços adversários. Observem:



                Acima, esquematizei o 4-3-3 com os jogadores mais utilizados por Sabella. Ele aposta em laterais que apoiam pouco e guardam mais posição (Zabaleta e Rojo), exatamente pelo fato da defesa ter sido muito contestada, mas que têm bom passe vertical para os dois velozes da frente. Esses (Aguero e Messi), junto com a movimentação constante de Higuain, exploram muito os espaços nas costas dos volantes e dos laterais adversários com muita movimentação nos contra-ataques, originando gols.

                No trio central, Mascherano é sempre a oferta do passe e a garantia de bola limpa, sendo o eixo da saída de bola, se metendo no meio dos zagueiros, que abrem pros laterais chegarem mais a frente.  Já Di Maria e Gago buscam muito o lado, tanto na frente, apoiando as raras subidas dos laterais, quanto atrás, ajudando a marcação no setor, como efetivos “carrilleros” (nome dado a esse 2º volante lateral na Argentina).

                Apesar da boa proposta reativa, o time ainda sofre com alguns ajustes. As laterais, apesar de defensivas, sofrem com essa parte, talvez pela pouca recomposição dos dois mais abertos a frente Messi e Aguero. O miolo de zaga, apesar de bem protegido por Mascherano, sofre com alguns ajustes de posicionamento, que se bem treinados, serão difíceis de passar na Copa. Quanto ao grupo, creio que passará, mas não terá vida fácil contra os seus adversários, que saberão explorar seus defeitos. Abaixo, deixo um vídeo (créditos ao Futebol Portenho) de gols em contra-ataques feitos por essa Argentina de Sabella:




IRÃ


                Comandado pelo tão questionado português Carlos Queiroz, a seleção Iraniana adota uma postura parecida a da Argentina. Se fecha atrás e espera os contragolpes mais eficientes. Com um time propício a isso, jogam num 4-2-3-1 bem defensivo, característico de seu técnico. Observem abaixo:


                Destaque para a boa revelação no ataque Ghochaneijad, que fez o gol da classificação para a Copa e para o bom meia aberto pela direita Dejagah, dono dos contra-ataques da equipe. Sofre com um pouco de falta de criatividade no meio campo, já que se usa de dois volantes com características de marcação (Teymourian e Nekounam). Dentre as quatro, aparenta
ser a seleção mais fraca, mas com organização, nunca se sabe o que pode esperar de qualquer seleção.


NIGÉRIA


                O jovem time comandado pelo técnico Stephan Keshi abusa da maior característica do futebol africano: velocidade e plenitude física. Mas também sofre e muito do mesmo defeito da grande maioria dos conterrâneos continentais: a inexperiência. Usando um 4-2-3-1, que vira 4-3-3 com a posição mais enfiada dos pontas Musa e Moses, o time gosta de explorar as costas dos laterais adversários e traz dificuldades a esse setor da defesa adversária, abusando do uso dele.



                Os laterais apoiam muito, fazendo 2 x 1 nos lados. Pelo meio Mikel e Onazi ajudam Mba na armação das jogadas e na construção dos espaços para que os velocistas corram nos acima. O miolo de zaga, de média de 20 anos, sofre com espaços deixados pelos volantes em seus avanços e pelo ímpeto ofensivo dos laterais. Muitos gols sofridos pelas equipes são em contra-ataques mortais, prato cheio para a Argentina de Sabella. Por natureza, tende a respeitar mais o protagonista do grupo, apostando em um time mais recuado, já que se não o fizer, sofrerá muitos gols dos argentinos.
               


BOSNIA E HERZEGOVINA


                Um time naturalmente ofensivo e que encanta. Assim definiram muitos europeus ao verem a surpresa Bosnia passar em seu grupo em primeiro lugar, deixando a favorita Grécia para trás. Comandados pelo ótimo ex meio-campista Safet Susic, a equipe jogou um futebol para frente e sem medo, muito intenso, aproveitando da boa safra de jogadores que tem (Pjanic, Dzeko, Ibisevic, Lulic, etc.).

                O técnico se utilizava de dois sistemas de jogo: o 4-1-3-2, seu favorito, se aproveitava da velocidade pela esquerda da dupla Lulic/Salihovic, da qualidade de Misimovic, decisivo em muitos jogos e do faro de Dzeko; e o 4-2-3-1, quando necessitava preencher mais o meio campo, mas nunca abdicando de seu jogo pra frente. Observem:

4-1-3-2

4-2-3-1

                Notem que a base de ambos os sistemas é a mesma. Laterais extremamente ofensivos, que chegam para tabelar, fazer 1x2 e cruzar para aproveitar o bom porte físico de Dzeko. Um meio campo mais cadenciado, mas de ótima qualidade técnica, sem um volante essencialmente marcador. Destaque para a movimentação de Pjanic, que gosta de sair da direita para o meio explorando as costas dos volantes adversários.

                Contra adversários mais fortes, o técnico comumente gosta de usar um volante para auxiliar Medunjanin, já que Pjanic não tem tanto ímpeto defensivo. Para isso, ele usa Besic, e libera Pjanic mais a frente, retirando um dos homens da frente, dependendo das condições físicas ou do que o adversário traz.

                      Num flagrante abaixo de dois anos atrás, num amistoso contra o Brasil, podemos ver um pouco do 4-1-3-2 de Susic (creditos ao antigo blog Olho Tatico do André Rocha), com Misimovic escalado pelo lado e Rahimic na função centralizada sempre ganhando suporte de Medunjamin. Pjanic aberto como sempre buscando o meio e Ibisevic alargando a defesa para facilitar a vida de Dzeko.


                Analisadas as quatro seleções, podemos perceber que não será tão fácil assim a vida dos argentinos. Nigéria e Bosnia prometem ir a frente e atacar os espaços dados pelas laterais argentinas e o Irã promete se defender ao máximo atrás para atrapalhar a proposta reativa argentina.

              Na opinião minha como analista: Argentina leva a primeira colocação devido a maior qualidade técnica e tática , com a Bosnia e a Nigéria se matando pela segunda vaga. Não vejo chance para esse Irã de Carlos Queiroz, que já falou em entrevistas que está tendo dificuldades em sua preparação, ficando com a última colocação.

             Características diferentes num grupo: reatividade e impetuosidade. O favorito gosta do contra-ataque, as zebras gostam de atacar, o cachorro morto se defende para não apanhar mais. O grupo F promete e vale a pena assistir!

                Esta foi a terceira edição do Taticando na Copa, com Gabriel Daiha, comentando sobre o grupo F em que a Argentina passa sim, mas que terá duas sombras pertubando-a constantemente, podendo inclusive roubar pontos dela. Divulguem este texto, vale a pena sempre ler sobre essa parte no futebol! Estimular a leitura sobre tática enriquece conhecimento e é cultura! Abraços e até a próxima!

Confira o último texto com Diogo Ribeiro: clique aqui

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Autor: RMZ

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