Tudo igual no circo encarnado

Elenco do América-RN ouve presidente (Foto: Fabiano de Oliveira)

Existem pessoas que são verdadeiras apaixonadas por circo. É fantástico ver nos olhos de adultos, senhores, senhoras e crianças um brilho nos olhos diferente sempre que estão contemplando um espetáculo circense. Conheço pessoas, inclusive, que assistem espetáculos do mesmo circo várias vezes, em vários dias seguidos, sempre na esperança do show seguinte ser diferente do anterior. O problema é que nem sempre a demonstração posterior é diferente da que antecede, aliás, quase nunca.

Em Natal existe um circo muito bonito, famoso, representativo e que possui muitos admiradores. Todavia, esse circo sempre esteve nas mãos de poucos gerentes. Quase sempre passa de mão em mão entre meia dúzia, um vai e volta enorme. As vezes penso até que eles se acham donos desse circo. É preciso deixar muito claro que eles não são.

Neste circo tem de tudo, vários funcionários, alguns experientes, outros jovens, muito jovens, alguns até mesmo nunca estiveram em outro espaço fora aquele. Alguns, de fato, são gratos a tudo que esse circo proporcionou em suas vidas. Mas, como em todo circo, existem funcionários descontentes, despretensiosos, covardes e palhaços sem graça. Nossa, palhaço é o que não falta. Tem de rodo, falta espaço. 

Posso até mesmo contar a história de um palhaço que é metido a ser político. O cara engana no circo e na vida pública. E o cara é bom na arte de enganar. Um dia, após muito ludibriar, este palhaço foi promovido a chefe. O começo foi promissor, o palhaço resolveu inovar e gastar muita grana para equipar nosso circo encarnado. Pensava: vou ficar marcado na história. Eles jamais vão esquecer de tudo que fiz. 

De fato, seus feitos jamais foram esquecidos. O circo até melhorou depois dos investimentos, cresceu, subiu de nível e quebrou. Claro, como gastar aquilo que não se pode? Um dia a conta chega. E chegou. Com o rabo entre as pernas, nosso personagem, palhaço, sempre bom destacar esse pronome, foi embora. Decidiu fazer graça em outras praças.

Um dia, quando ninguém esperava, resolveram que era hora de resgatar esse palhaço. Sentiram falta, acho, pensaram que talvez fosse importante dar-lhe uma segunda chance de comandar este circo que vivia dias difíceis, ainda fruto da incompetência do nosso amiguinho. 

Como sempre, tudo igual no circo encarnado. Nosso palhaço voltou e conseguiu destruir todo processo de reestruturação que nosso imenso e magnífico circo passava. Era mais uma vez a hora do basta. Um basta sem volta. O palhaço então foi embora, pela segunda vez e com a certeza de que nunca mais teria a chance de reerguer aquele velho e castigado circo que tanto o ajudou um dia.

Passaram-se longos anos até que aquele velho circo natalense estava de pé e estruturado novamente, reaberto, mesmo humilde, dava alegrias aos seus fiéis admiradores. Um espetáculo aqui, outro acolá e tudo na normalidade. A única coisa que não mudou, neste tempo, foram as mãos de ferro. O poder sobre o futuro do circo seguia nas mãos de poucos, o que irritava alguns fiéis admiradores que não queriam ver sua enorme fonte de diversão e lazer ser refém de poucas figuras.

Quando ninguém mais esperava um retorno do palhaço tão letal, ele resolveu voltar, assim, como quem não quer nada. Era hora de renovar seu mandato na vida pública, e ter este circo tão gigante como bandeira ajudaria-o a renovar seus votos, votos de alguns inocentes cidadãos. Refém, como sempre, os admiradores jamais apoiaram essa volta e ameaçaram boicote. Ninguém iria sossegar enquanto este palhaço maligno estivesse com as mãos no maravilhoso circo encarnado.

Infelizmente, nem toda rebeldia foi suficiente. O palhaço retornou ao comando e resolveu fazer graça, pomposo, fez marra e prometeu que as coisas seriam diferentes. Alguns poucos sempre acreditam, a maioria, surrada, castigada, não. Quem apanha jamais esquece. Com olhares tortos e pouco público, o circo voltou a funcionar e foi surpreendentemente melhorando em relação aos shows alheios. Sua concorrência foi ficando para trás. Isso durou pouco tempo, é bem verdade, as coisas não mudariam tão rápido. O tempo foi provando que a volta do palhaço foi um erro. Pela terceira vez, os admirados do circo viram um mesmo espetáculo, forrado em mentiras e farsas, com resultado trágico anunciado.

Nesse momento da história, dia 29 de novembro do ano de 2014, temos em Natal um circo que chora. Temos um vermelho fosco, um encarnado que não lembra em nada aquele vermelho vivo de tempos atrás. A verdade é que a maioria dos amantes do circo não queriam que ele fizesse mais do que podia, bastava ter um pouco de estrutura e alguns bons artistas paras espetáculos pequenos e proporcionais. Nosso personagem, palhaço, quis ir além, dar um passo maior do que as próprias pernas. 

Derrubado e próximo de completar cem anos de vida, nosso circo está menos feliz. Nossos admiradores, menos alegres. Nossos artistas, menos compromissados. Nossas vidas em Natal, mais tristes. 

E o palhaço? 

Tanto faz. Para ele, tanto faz. Quebrou nosso circo três vezes e ainda pode tentar novamente, afinal, ninguém consegue detê-lo. O caminho natural de momento é que nosso personagem tome outros rumos, como fez nas duas vezes anteriores. A poeira baixa, as lonas são reerguidas e os shows recomeçam. Serão simples, felizes, honestos, e os admiradores aos poucos retornam a frequenta-lo. Isso até um dia, claro, quando resolverem recolocar tudo nas mãos de quem não liga a mínima para tudo que este circo representa na vida do povo de um estado pobre de alegria. 

Segue tudo igual no circo encarnado. 

Até a próxima!

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Autor: Sérgio Ricardo Jr.

Sérgio Ricardo Jr. é acadêmico em Jornalismo pela UFRN e colaborador do C11 desde 2014.
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