Os últimos acontecimentos envolvendo o futebol brasileiro e graves atos racistas indignaram a sociedade e chamaram a atenção da mídia, novamente, para esse tipo lamentável de atitude. Os protestos e a mobilização são extremamente necessários, assim como as severas punições. Quase mais do que isso, é preciso se lembrar que o preconceito no futebol não vem de hoje, tendo diminuído levemente com o passar dos anos mas nunca deixado de existir no esporte.
Atos racistas nos estádios não são novidade alguma, como já dito. E não são exclusivos de 1º ou 3º mundo: existem em todos os lugares. Os exemplos de preconceito no futebol moderno, principalmente no século XXI, comprovam que a atitude dos torcedores não melhorou tanto com relação há 200 anos atrás, com a escravatura ainda em vigor. Com três casos de racismo envolvendo os volantes Tinga e Arouca, e o juiz Márcio Chagas da Silva, em mais ou menos um mês, o assunto esquecido voltou à tona na imprensa.
Na Europa, dita desenvolvida, isso também acontece frequentemente. Nos últimos anos tiveram dois casos de racismo envolvendo brasileira no novo continente. Em 2011, num jogo do Anzhi Makhachkala, um torcedor jogou uma banana em direção ao pentacampeão lateral-esquerdo Roberto Carlos. Em 2012, toda vez que Hulk pegava na bola pelo Porto os torcedores do Benfica faziam “uh uh uh” imitando o guinchar de um macaco. Até que o brasileiro recebeu uma bola na ponta direita, cortou para o meio em sua jogada característica e bateu de esquerda para marcar um golaço e assim calar os racistas.
Se formos puxar um pouco mais na memória, teve o famoso caso Grafite/Desabato. Em jogo válido pela Taça Libertadores da América do ano de 2005 no Morumbi, o São Paulo venceu o Quilmes por 3x1, mas o resultado ficou em segundo plano. No segundo tempo, o atacante do tricolor paulista se estranhou com Arano e Leandro Desabato foi flagrado pelas câmeras chamando Grafite de “negrito”. O caso foi leva à delegacia.
Na Inglaterra, conhecida como melhor Liga nacional do mundo, recentemente dois incidentes de suposto racismo mexeram com os atletas, mas nenhum dos dois 100% comprovado. O primeiro foi de Luis Suárez com Patrice Evra, em que o lateral francês teria sido ofendido pelo atacante uruguaio. Nos encontros seguintes, Suárez se recusou a cumprimentar Evra; que revidou comemorando o título do Manchester United mordendo uma mão de plástico em “homenagem” à famosa jogada entre o 7 do Liverpool e o zagueiro/lateral do Chelsea, Branislav Ivanovic. O outro foi entre John Terry e Anton Ferdinand em que o capitão do Chelsea teria chamado o irmão mais novo do zagueiro Rio Ferdinand de “f*cking black cunt”, que seria algo parecido com “negro desgraçado do c*ralho”. No jogo seguinte entre os Blues e o QPR, time de Anton, o mesmo se recusou a apertar a mão de Terry e de Ashley Cole, companheiro de clube do camisa 26 que defendeu sua inocência publicamente. Esse episódio custou a Terry a braçadeira de capitão da seleção inglesa.
Outro caso de racismo envolvendo um atual jogador dos Blues foi o de Samuel Eto’o, que na época atuava pelo Barcelona. Em 2006 quando o time catalão foi enfrentar o Zaragoza fora de casa, cânticos racistas fizeram com que o camaronês quisesse abandonar o campo e dissesse “No más” repetidamente. Ronaldinho e os companheiros conseguiram fazer Eto’o seguir na partida - coisa que não aconteceu com Boateng quando ainda jogava pelo Milan, em um amistoso na Itália contra o Pro Patria, da 4ª divisão. Na situação, o ganês se retirou do jogo, apoiado pelos companheiros. Seis torcedores acabaram presos no tribunal.
Esse último exemplo, da Itália, tem tudo para servir de base para a justiça brasileira. Nem que seja minimamente.
É exemplar fazer campanha para combater esse tipo de preconceito, vide as faixas e gestos que clubes, jogadores e árbitros fizeram nos últimos finais de semana de futebol. É bonito ver a CBF ressaltando que abominam os acontecimentos no site oficial e no facebook; ver a Conmebol, sempre tão omissa, falando mal do ocorrido na Libertadores; ver a presidente postando mensagens contra o racismo e solidárias aos profissionais que sofreram. Mas, mais que simples apelos para a conscientização dos "torcedores", são necessárias punições, identificações - algo concreto.
Não têm a competência de descobrir quem foram os responsáveis? Punam os times. Vocês vão lembrar que só foi o STJD começar a tirar mandos de campo e punir os clubes cujas torcidas atiraram algo no gramado para começarem a surgir as denúncias dos próprios torcedores dentro do próprio campo. Casos assim aconteceram até no Brasileirão do ano passado. Foi só o começo do que é preciso fazer no futebol brasileiro, contudo pelo menos houve por onde começar.
| Aimoré entra em campo no Gauchão com as máscaras do árbitro vítima de racismo no campeonato |
CBF, Conmebol, Fifa - alguém precisa agir severamente para banir qualquer tipo de ação racista dentro do espetáculo que é o esporte. Em pleno 2014, é caso de prisão.
Como não podemos fazer muita coisa, o C11 abraça a luta pela igualdade dentro e fora dos gramados e condena qualquer tipo de atitude preconceituosa. Esperamos chamar a atenção do público para essa mobilização e fazer parte apenas de uma corrente que tome conta do país, do continente e, por que não, do mundo inteiro.
Representando toda a equipe, Gabriel de Jesus e Diogo Magri

comentar com Facebook