Por onde anda o Mundial 2014 #2: Zenit São Petersburgo


"Mas já?" Sim, também fomos surpreendidos. Como citamos no post anterior, achávamos que o responsável por tirar o título mundial do Bayern, o Red Bull Salzburg, só jogaria no dia 2 de fevereiro, pelo Austríacão. Mas, ontem, o Salzburg recebeu a equipe do Zenit para um amistoso em casa. O resultado foi 1x0 para os russos, que se sagraram os novos campeões mundiais.

A partida, como tradicionalmente ocorre em amistosos, foi morna. O gol solitário do jogo só ocorreu aos 81 minutos, 36' da etapa final. O brasileiro Hulk, principal nome do Zenit, recebeu na entrada da área e encobriu o goleiro do Red Bull. Um golaço tupiniquim.

O FC Zenit São Petersburgo, fundado em 1925, não é famoso por ser considerado um dos clubes mais vitoriosos da história da Rússia - mas também não é desses novos ricos, sem tradição, que tomaram conta de boa parte do futebol moderno. Fundado na antiga São Petersburgo, o clube teve origem na usina siderúrgica da cidade. E não tinham alcançado bons resultados antes de se mudarem para Kazan no início da 2ª Guerra Mundial, que praticamente separou toda a equipe. A volta à Petersburgo, rebatizada como Leningrado, só ocorreu em 1944 quando, surpreendentemente, o Zenit teve seu primeiro título, a Copa URSS, passando pelo maior rival, Spartak Moscou, e pelo CDKA (hoje CSKA). Mas, a partir dali, a torcida azul-turquesa iria sofrer bastante.

No final da década de 50, após péssimos resultados, foi discutido o fim da equipe de futebol. O clube só foi salvo com a chegada do treinador George Zharkov, que apostou nos garotos das escolas esportivas de Leningrado. Zharkov não deu títulos ao time, mas conseguiu um período de estabilidade entre os melhores.

Até que, em 1967, o Zenit terminou o campeonato nacional em último lugar. Porém, curiosamente, o clube não foi rebaixado. Naquele ano se comemorava o cinquentenário a Revolução de Outubro, ocorrida na cidade cujo único time de futebol profissional era o Zenit. Por isso, acharam que não seria conveniente rebaixar o time em meio às festividades.

Mas a sorte do ano em que escapou graças a sua cidade não fez com que o Zenit melhorasse nos próximos torneios. De novo sofrendo com o rebaixamento, o clube foi salvo por outro técnico. Iuri Morozov chegou à Leningrado no final da década de 70 e iniciou um projeto baseado na filosofia de Zharkov. O resultado conseguiu colocar o time entre os 3 melhores da URSS antes de 1980, o maior resultado da história do Zenit até então. Em 1984, ainda colhendo os frutos de Morozov, os Leões de Leningrado enfim foram campeões soviéticos.

Mas não se pode comemorar por muito tempo em um clube como o Zenit, muito marcado pela instabilidade em sua história. Ainda na década de 80, o clube, então sustentado por uma empresa estatal da cidade, se viu independente e sem apoio com o fim do regime socialista na nação. Logo, caiu para a 2ª divisão nacional. Apenas com o fim da União Soviética, em 1991, que levou à separação dos países que compunham a união, o Zenit foi um dos escolhidos para a disputa da elite do Campeonato Russo. Leningrado voltou a ser São Petersburgo, o que também obrigou o Zenit a adotar o nome atual. Mas tudo isso só atrasou o descenso, que veio no ano seguinte.

O clube conseguiu se reerguer ao voltar para a elite em 1996, de onde, finalmente, nunca mais sairia. Com uma defesa praticamente intacta, venceu a Copa da Rússia em 1999 - era somente o prefácio de uma década de ouro para o Zenit que seriam os anos 2000.

Após uma série de bons resultados, os azuis-turquesa embalaram em 2006 com a chegada do maior nome da história do clube, o treinador holandês Dick Advocaat. No ano seguinte, o Zenit era campeão russo. Em 2008, o clube chegou às semis da Copa da UEFA, mas teria que enfrentar o Bayern de Munique, que ainda contava com Kahn e Luca Toni. Conseguiu um suado empate fora de casa por 1x1 e, em São Petersburgo, no jogo de volta, o clube teve a vitória mais memorável de sua história: 4x0 em cima dos super-alemães. Na final, bateram o Rangers por 2x0 na Inglaterra. Sim, campeões da Copa da UEFA. Pararam por aí? Que nada. Na abertura da temporada seguinte, o Zenit venceu o Manchester United, atual campeão da UEFA Champions League. Sim, supercampeões da Europa.

Dali até o estrelato de melhor equipe da Rússia foram dois pulos. O bi do Russão veio em 2010, o tri em 2012. Sustentado pela Gazprom, maior empresa de gás do mundo, hoje o Zenit é o clube mais rico de seu país, além de pertencer à segunda cidade mais importante da Rússia. Seu estádio, Petrovsky, fica nas margens do Rio Neva e tem capacidade para modestas 21.570 pessoas.

Hoje, a equipe é liderada pelo brasileiro Hulk, contratado por uma fortuna da Gazprom quando era desejado pelo poderoso Chelsea, e Arshavin, ídolo da equipe durante sua primeira passagem (2000-09) e que voltou no ano passado depois de jogar 4 anos no Arsenal.

A torcida do Zenit é a maior da Rússia atual mas, por incrível que pareça, não está em sua maioria em São Petersburgo - isso por conta da popularidade nacional que o time conseguiu na última década. Ela é bem conhecida por seus princípios mais radicais e racistas, sendo protagonista em casos de ofensas aos brasileiros Roberto Carlos, então no Anzhi, e ao próprio Hulk. Por várias vezes o lendário Advocaat não quis contratar negros quando treinador por medo das atitudes de seus torcedores. Apesar de já ameaçado pela UEFA por diversas vezes, o clube nunca foi punido por falta de interesse da federação russa de futebol.

Não há o que se discutir sobre a necessidade de uma punição em cima de atos racistas, contudo seria um tanto irônico ver um clube com uma história de tantos favorecimentos e salvações, depois de enfim conseguir mais de uma década somente com bons resultados e chegando no topo da Rússia, ser punido severamente por culpa de sua torcida.

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Bom, fomos surpreendidos e não queremos ser novamente. O site oficial do Zenit só diz que seu próximo jogo será dia 25 de fevereiro, contra o Borussia Dortmund, na Rússia. Mas, se houver algum outro tipo de amistoso, podemos voltar a qualquer instante. De certa forma, foi um alívio o título mundial ter saído do Campeonato Austríaco para o Russo. E quem sabe ele não migra de volta para a Alemanha?
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Autor: Diogo Magri

17 anos, são-paulino do interior. Tenho trauma de bola parada, de pênaltis e de elogios ao goleiro antes do fim do jogo. No C11, falo de futebol europeu. Na vida, tento sofr... digo, ser jornalista.
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