Por onde anda o Mundial #14: Definitivamente, UTC é a campeã


Depois de 13 edições (esta é a décima-quarta), chegamos ao fim do Por onde anda o Mundial versão 2013. Logo temos também, finalmente, o campeão definitivo que ficará com o título até que ele seja disputado de novo na final do Mundial de Clubes da FIFA desse ano: e ele - ou melhor, ela - é a UTC, a Universidad Técnica de Cajamarca.

A proeza foi conquistada após a UTC derrotar, de virada, o Inti Gas, no último sábado, por 4x2. E, como não poderia ser diferente em uma disputa valendo o título definitivo, o jogo foi sensacional. Na casa do Inti, o artilheiro brasileiro das longas madeixas loiras já mencionado algumas vezes nessa coluna, Fernando Oliveira, fez 2x0 logo de cara;  um gol aos 10' e outro aos 20'. Ainda no primeiro tempo, aos 42 minutos, o zagueiro uruguaio Souza cobrou um pênalti cometido pelo goleiro adversário, Villasanti, e diminuiu o placar. Dois minutos depois, o meia argentino Molina, xará daquele ex-Santos, empatou o jogo para a Cajamarca. 

Na segunda etapa, aos 27' e 34', o mesmo Molina decidiu de novo. Com o hat-trick, o argentino foi o grande nome da virada da UTC e, logicamente, o responsável pela sua equipe ter chegado à desejada glória de ser campeã mundial. Pelo menos por uns dias.

Com certeza o que ganhamos de melhor acompanhando essa série ao longo do ano é o fato de conhecermos histórias das equipes mais distantes do futebol que todos vêem, aquelas que acabam sendo as mais curiosas e interessantes. Um outro bom exemplo disso é a UTC de Cajamarca.

Fundada em 14 de julho de 1942 por dois funcionários da extinta Universidad Técnica de Cajamarca (hoje Universidad Nacional de Cajamarca), a UTC então tinha o nome de Universidad Técnica Clube de Cajamarca. E o simpático time sofreu nos primeiros anos de amadorismo, sempre apanhando para as equipes das cidades menores vizinhas. A situação só começou a melhorar em 1960, quando a Universidade da cidade resolveu apoiar de verdade o clube, facilitando a sua profissionalização, que ocorreria na década de 1970.

O time adotou o longo nome atual: Club Cultural y Deportivo Universidad Técnica de Cajamarca (ou simplesmente UTC) e as cores creme e grená para o uniforme e para o escudo. Na época, apenas uma competição dava acesso à elite do Campeonato Peruano: a Copa Peru. E ela foi vencida pela UTC em 1981, derrotando o Sportivo Huracán na final. Com a conquista, o clube de Cajamarca disputaria pela primeira vez a série A do Peruanão em 1982.

E a década de 80 foi o auge da UTC. Em 1985, o time comandado pelos irmãos Segundo e Norberto Cruz foi vice-campeão do Campeonato Peruano. Ganhou, assim, o direito de disputar a Copa Libertadores de 1986, a competição mais importante das Américas. Cajamarca ficaria em último em um grupo com Bolívar/BOL, Jorge Wilstermann/BOL e Universitario de Lima/PER, com uma única vitória conquistada em casa por 3x2 em cima do Wilstermann na última rodada do grupo - foram também 4 derrotas, 2 empates, 7 gols feitos e 13 sofridos. Mesmo assim, é imaginável a euforia que a cidade viveu na época.

Cajamarca ainda sobreviveu alguns anos na elite peruana até ser rebaixado em 1993. Dali em diante virou um time que disputava apenas competições regionais - e isso durou por mais de uma década. Somente em 2006, por meio de um concurso público (?!), a UTC conseguiu ser promovida à segunda divisão peruana. Mas, em condições quase amadoras, caiu novamente em 2008.

Mesmo sendo uma equipe regional, a UTC ainda tinha o direito de disputar a Copa Peru, que dava a vaga direta à primeira divisão nacional. Foi eliminada precocemente nas edições de 2009, 2010 e 2011, mas chegou mais forte em 2012 (sim, no ano passado). Venceu a etapa regional, eliminando o Deportivo Carlos Mannucci e o Alliance Cutervo. Se mostrando muito forte em casa, eliminou o Académicos Alfred Nobel nas oitavas, vencendo por 5x1 em seus domínios e perdendo por 3x0 fora. Com ótimos resultados em casa, também passou por Sporting Pizarro nas quartas e pela Alianza Cristiana nas semifinais. Depois de 31 anos, a UTC chegava de novo na final da Copa Peru.

O rival seria o Deportivo Alfonso Ugarte, de Puno. No primeiro jogo, em casa, de novo uma boa vantagem: 2x0. Fora de casa, o 3x2 favorecendo o Deportivo foi o suficiente para que a UTC se declarasse bicampeã da Copa Peru e voltasse à primeira divisão peruana depois de 20 anos. 

2013, ano em que estamos, foi marcado pela volta da equipe de Cajamarca para o lugar de onde nunca deveria ter saído. E ela ainda fez bonito: se manteve na elite, conquistou o título mundial na última rodada e de quebra uma vaga na Sul-Americana de 2014.

Como se não bastasse a incrível história do clube, também é preciso que se fale do seu estádio. O Estadio Heróes de San Ramón fica na região norte de Cajamarca (que fica por sua vez no norte do Peru), no bairro San Ramón, com direito a vista para a Cordilheira dos Andes. E a casa da UTC tem esse nome em homenagem a três estudantes da Universidade da cidade que deram a vida na batalha de San Pablo, durante a Guerra do Pacífico, que envolveu Chile e Peru. O lugar tem capacidade para 18.000 pessoas.

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Com o fim do campeonato e da temporada de futebol no Peru, a UTC não joga mais oficialmente nesse período entre a última rodada do Peruanão e a próxima final de Mundial de Clubes da FIFA. Portanto, até que outro time ganhe o título na competição internacional, os peruanos não têm como perdê-lo, e se tornam assim os campeões mundiais definitivos de 2013. 

Foi muito legal acompanhar o Mundial, aonde quer que ele estivesse, nessa primeira temporada. Apesar de ir para uma liga sem nenhum atrativo financeiro (e não conseguir sair de lá, já que os clubes peruanos tem pouquíssima força continental), é sempre interessante acompanhar o esporte bretão em países não tão tradicionais e que nos fornecem grandes histórias, como já dito antes. Desde o gol de Paolo Guerrero, em dezembro, 14 clubes conseguiram conquistar o Mundial (3 brasileiros e 11 peruanos). São eles: Corinthians, Ponte Preta, Palmeiras, Sporting Cristal, Melgar, Universitario, César Vallejo, León de Huánuco, Alianza Lima, Inti Gas, Universidad San Martín, Cienciano, José Gálvez e UTC.

Abaixo, a lista das "finais" que decidiram os campeões.

16/12/2012 - Corinthians 1x0 Chelsea - Mundial de Clubes - Yokohama, Japão

23/01/2013 - Corinthians 0x1 Ponte Preta - Campeonato Paulista - São Paulo, Brasil

07/04/2013 - Ponte Preta 1x2 Palmeiras - Campeonato Paulista - Campinas, Brasil

18/04/2013 - Sporting Cristal 1x0 Palmeiras - Libertadores - Lima, Peru

21/04/2013 - Melgar 3x0 Sporting Cristal - Campeonato Peruano - Arequipa, Peru

25/04/2013 - Universitario 3x0 Melgar - Campeonato Peruano - Lima, Peru

28/04/2013 - Sporting Cristal 4x0 Universitario - Campeonato Peruano - Lima, Peru

12/05/2013 - César Vallejo 1x0 Sporting Cristal - Campeonato Peruano - Trujillo, Peru

19/05/2013 - Universitario 1x0 César Vallejo - Campeonato Peruano - Trujillo, Peru

30/06/2013 - León de Huánuco 2x0 Universitario - Campeonato Peruano - Huánuco, Peru

18/08/2013 - Alianza Lima 2x1 León de Huánuco - Campeonato Peruano - Lima, Peru

25/08/2013 - Inti Gas 3x1 Alianza Lima - Campeonato Peruano - Huamanga, Peru

18/09/2013 - San Martín 3x1 Inti Gas - Campeonato Peruano - San Martín de Porres, Peru

6/10/2013 - Cienciano 1x0 San Martín - Campeonato Peruano - Cuzco, Peru

26/10/2013 - José Gálvez 1x0 Cienciano - Campeonato Peruano - Chimbote, Peru

3/11/2013 - Universitario 1x0 José Gálvez - Campeonato Peruano - Lima, Peru

20/11/2013 - Inti Gas 3x2 Universitario - Campeonato Peruano - Huamanga, Peru

30/11/2013 - Inti Gas 2x4 UTC - Campeonato Peruano - Huamanga, Peru

Algumas curiosidades: O Universitario foi o que mais foi campeão, conquistando três vezes a alcunha e totalizando 62 dias sendo dono do título. Mesmo assim, não foi o suficiente para ser o campeão da temporada. Inti Gas (34 dias no total) e Sporting Cristal (17 dias) foram bicampeões, mas ficaram menos tempo com o título do que Corinthians (38 dias) e León (49 dias), que ganharam apenas uma vez. Mas a grande surpresa é a Ponte Preta, hoje finalista da Sul-Americana: a Macaquinha de Campinas foi campeã apenas uma vez mas, graças a excelente campanha na 1ª fase do Paulistão, conseguiu ficar exatos 74 dias com o título em suas mãos.

A 2ª temporada? Bem, ela começa logo após a decisão do Mundial da FIFA, em dezembro desse ano. Ou não. Só pretendemos continuar a brincadeira caso um brasileiro ganhe novamente o campeonato - no caso, a única chance seria o Atlético/MG. Caso contrário, não teremos a segunda temporada do Por onde anda o Mundial. Não em 2014.

Até mais, nos vemos pelo C11. E ficamos na torcida pelo Galo em Marrocos.


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Diogo Magri
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Autor: Diogo Magri

17 anos, são-paulino do interior. Tenho trauma de bola parada, de pênaltis e de elogios ao goleiro antes do fim do jogo. No C11, falo de futebol europeu. Na vida, tento sofr... digo, ser jornalista.
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