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| (Batalha dos Aflitos - 8 anos) |
Alô, amigo leitor! Sou Mairon Aquino e o 'Entrou na História' de hoje chega para relembrar muito mais do que um jogo de futebol. Mesclada com sentimentos de ventura, ódio, emoção e tensão entrelaçados num êxtase sem explicação, a tão conhecida 'Batalha dos Aflitos' completa 8 anos neste 26 de Novembro. Clica e relembre conosco o que muito provavelmente jamais poderá ser visto de novo no futebol!
'' - Algumas pessoas acham que futebol é uma questão de vida ou morte. Eu discordo. Futebol é muito mais importante que isso.'' - Bill Shankly, ex-técnico do Liverpool, da Inglaterra.
Baseado no que disse Bill, você não tem o que contestar. Seu time chega em uma final de campeonato ou em qualquer momento decisivo do futebol, você começa a contar os dias, fica ansioso, imagina o quão será bom esfregar o título na cara dos rivais e também o quão seria deprimente um vice-campeonato. A 'Batalha dos Aflitos' não começa um, dois, três dias antes daquele jogo no Recife. Nem uma, duas semanas. Protagonistas e seus anos antecessores que os digam: O Grêmio, de uma grandeza imensurável, viveu um drama no ano de 2004: sem o Olímpico, interditado pela CBF, o clube afundou em crise rumo ao rebaixamento. Já o Náutico, depois de uma bela campanha na primeira fase da Série B daquele ano, caía na posterior, tendo que aguentar mais um ano de segunda divisão.
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| (Jornal 'Zero Hora' estampa o rebaixamento gremista / Divulgação) |
Segunda fase. Divididos em dois grupos de 4, os times enfrentavam-se em jogos de ida e volta. Os dois primeiros avançavam ao quadrangular final. No grupo A, o Grêmio passara em 2°, com 12 pontos. No B, líder, o Náutico também avançara com os mesmos 12 pontos. Rumavam ao quadrangular final: Santa Cruz, Grêmio, Náutico e Portuguesa. Também em jogos de ida e volta, os confrontos definiriam que os dois primeiros retornariam à elite do futebol, sendo o líder campeão da Série B.
A uma rodada do fim, a classificação apontava o Grêmio líder com 9 pontos, seguido de Santa Cruz, 7, Náutico, 6, e Portuguesa, 5. Todos com chances reais de atuar na primeira divisão de 2006. Recife era a capital da decisão, e enquanto o Náutico recebia o Grêmio nos Aflitos, o Santa Cruz colocara mais de 60 mil pagantes, como sempre, no Arruda, para recepcionar a Portuguesa. O Náutico precisava vencer e torcer para uma vitória da Lusa diante do Santa Cruz, que assim como o Grêmio, também só precisava empatar para estar na Série A do ano seguinte. O tricolor gaúcho estava a um empate do acesso e um tanto do título. Mas foi a Pernambuco não imaginando o que estava por vir...
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| (Aflitos viria a ser palco de algo inimaginável / Divulgação) |
A tensão vivida pelos jogadores do Grêmio antes da partida parecia mostrar o que viria logo após, quando a bola rolasse. Djalma Beltrami, hoje Coronel da Polícia Militar do RJ, é o árbitro da partida. No Arruda, Santa Cruz e Portuguesa começam o outro duelo decisivo com emoção: a Lusa logo abre o placar, indo a 8 pontos e momentaneamente subindo à primeira divisão ao lado do Grêmio, que a essa altura encara um Náutico muito mais motivado pela vitória. Tanta motivação leva Paulo Matos a aproveitar-se de um mínimo toque de Domingos dentro da grande área para conseguir o pênalti. Simultaneamente, o Santa Cruz empata: 1 a 1 no Arruda. E ainda que o Náutico convertesse a cobrança e o time caíra apenas para a segunda colocação, tudo começava a dar errado para o Grêmio. Mas...
Bruno Carvalho.
Gallato, 21 anos.
Pé direito.
Na tra-ve!
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| (Bruno Carvalho acerta a trave de Gallato / Divulgação) |
Há jogo. E antes do fim da primeira etapa, o Santa Cruz vira o jogo no Arruda: 2 a 1 diante da Portuguesa.
2° tempo. O placar não se altera no Arruda e os Aflitos, em dia de jogo decisivo, com o Náutico já atordoando o Grêmio nos vestiários, nunca teve o nome fazendo tanto jus em um jogo de futebol. Aos 30', o chileno Alejandro Escalona põe a mão na bola e está expulso. Vibra a torcida do Náutico. Faltam 15' pro fim. Antes, porém, 3' mais tarde Djalma Beltrami enxerga um toque de Nunes dentro da grande área. O Náutico tem novo pênalti, e a confusão está armada.
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| (Jogadores do Grêmio partem para cima de Beltrami / Zero Hora) |
Revoltados, indignados, insatisfeitos. Os jogadores do Grêmio cercam o árbitro, que num primeiro momento expulsa Patrício, de quem acabou de receber uma peitada. Sob forte pressão, chama o policiamento e expulsa Nunes, autor do pênalti. A essa altura, imprensa, reservas e dirigentes invadem o gramado dos Aflitos. A confusão é geral.
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| (Policiais protegem o árbitro Djalma Beltrami / Divulgação) |
''E naquele momento o desespero bateu... A hora em que ele marcou só senti vontade de ir pra cima e justificar que não era pênalti...'' - Patrício, ex-lateral do Grêmio
A ideia era não deixar que o pênalti fosse cobrado. Mano Menezes, à época técnico do Grêmio, pedia calma aos jogadores, assim como que se retirassem. Paulo Odone, presidente, batia boca no gramado junto a outros dirigentes. Quando Beltrami enfim caminhava para a marca do pênalti, Domingos dá um tapa na mão do árbitro, o tirando a bola, e está expulso. O Grêmio tem 7 em campo e o regulamento diz que com 6 o jogo acaba. Restam 10, 15 minutos de jogo e um pênalti para o outro lado está marcado. O desespero reina e aquela altura, quem assiste tudo, não consegue enxergar outro tipo de final que não tenha o Náutico vencedor.
''Eu saí do vestiário e fui caminhar com minhas orações. Os jogadores se deram as mãos, se ajoelharam. Todos... roupeiros, reservas, expulsos...'' - Pelaipe, ex-diretor de futebol do Grêmio
25 minutos de paralisação e enfim o pênalti seria cobrado. De um lado, Ademar. Do outro, Gallato.
''Eu fui lá e disse: 'Cavalo, eu vou'. Eu pedi a (Roberto) Cavalo pra bater, já que vi que ninguém queria'' - Ademar, ex-lateral do Náutico
''Então naquele momento eu tive que ter a calma, ter a tranquilidade, e acreditar no meu potencial, acreditar que nós iríamos vencer...'' - Gallato, ex-goleiro do Grêmio
Ademar.
Pé esquerdo.
G a l l a t o ! ! !
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| (Gallato, 21 anos, vira herói ao defender o pênalti de Ademar / Zero Hora) |
Incrível. Heroico. Sensacional.
''E quando o Gallato defende o pênalti eu sou o único que não comemora, pois sei o quanto é difícil jogar 11 contra 10, imagine 11 contra 7...'' - Sandro Goiano, ex-volante do Grêmio
Sim, imaginamos o quanto seria difícil 11 contra 7. Mas aquela altura, com os jogadores asfixiados por querosene e tinta nos vestiários, com dois pênaltis marcados e perdidos, 25 minutos de paralisação, 5 expulsões, 4 do Grêmio e uma do Náutico, o Santa Cruz já comemorando o título no Arruda, algo estava estranho, tudo estava estranho, nada era normal, não, Sandro? Foi por isso que o menino Anderson, jovem, arrancou logo na saída do pênalti, tabelou com Marcelo, sofreu a falta, cobrou rápido, invadiu a grande área...
''[...] Se os caras encostarem em mim eu vou cair e ele vai dar pênalti. Se deu dois pra lá, um pra nós ele vai dar, com certeza. Daí vem o goleiro e falei 'driblo o goleiro ou não?' Aí só dei um toquezinho e consegui fazer o gol...'' - Anderson, ex-meia do Grêmio
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| (Anderson faz o que parecia impossível e dá o título da Série B ao Grêmio / Divulgação) |
Gol. Sim. Inacreditável. Era gol. O que há minutos atrás daquilo parecia impossível, aconteceu. E o Grêmio era campeão da Série B, retornando à primeira divisão junto ao Santa Cruz.
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| (Elenco e comissão técnica rezam em agradecimento ao título / Divulgação) |
Viva o Grêmio. Que com sua imensurável grandeza superou o drama vivido por quase 1 ano, retornando à elite do futebol de forma heroica e dramática. Viva o Náutico. Que apesar de um melancólico ano de 2013, não deixa de ser imensamente tradicional. Viva o futebol. Este que nos faz viver momentos insólitos e inimagináveis, como os daquela tarde de 26 de Novembro de 2005.
Viva aquele jogo. Jogo, não. Batalha. A Batalha dos Aflitos... que Entrou na História!







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